Parque Estadual Cerca Grande

Criado pelo Decreto Estadual nº 45.398 de 14 de junho de 2010, o Parque Estadual Cerca Grande possui uma área de Área: 134,1915ha e está localizado em Mocambeiro, distrito de Matozinhos.

 

Inserido na APA Carste Lagoa Santa, o Parque abriga um dos mais importantes e expressivos sítios arqueológicos do país, sendo o único de Minas Gerais tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN desde 1962.

Em 1835, Peter Lund, naturalista dinamarquês que fez importantes achados para a história mundial na região, os quais juntamente com os desenhos de Andrés Brandt revelaram para o mundo a fantástica paisagem cárstica mineira, seus fósseis de animais extintos e registros de antigas populações.

Local de grande beleza, o Parque guarda a memória escrita nas pedras por meio de registros rupestres: pinturas que escrevem a história de nossos antepassados nas cores branca, preta e principalmente amarela e vermelha. Estão presentes figuras antropomorfas, de desenhos geométricos e a maioria zoomórfica, sobressaindo-se grafismos filiados a Tradição Planalto.

O trecho a seguir, mostra como Lund ficou impressionado com a majestade do maciço e a peculiaridade de suas pinturas:

 

"Julguei ter diante de mim as ruínas de um vetusto Palácio de Gigantes, e meus olhos demoraram-se na contemplação de uma série de altas areadas na ala esquerda, como se espera descobrir aí, os vestígios de seus habitantes misteriosos [...]. A admirável paisagem que nos rodeia de há longo tempo que atrairia a atenção do homem selvagem. Os indígenas Nômades - eu suponho da tribo dos Caiapós - aqui se fixaram, encontrando abrigo nas grutas do imponente rochedo [...]. O rochedo dos índios, perto do Mocambo, será sempre um lugar clássico para o naturalista viajante, em vista da extraordinária raridade de monumentos comemorativos dos selvagens do Brasil, tais com este".

Desde então diversas pesquisas realizadas na área, destacam a relevância da mesma em termos arqueológicos, não só pelas belíssimas pinturas rupestres, mas pela ocorrência de vestígios elaborados a partir de cerâmicas, ossos e pedras, além dos inúmeros sepultamentos.

 

A primeira investigação científica em Cerca Grande iniciou em 1955, sob a coordenação dos arqueólogos Wesley Hurt e Oldemar Blasi, que escavaram vastas superfícies em 7 abrigos do maciço, encontrando valiosas evidências da ocupação humanas. Os resultados dessas pesquisas foram publicas em 1969 apresentando datações radiocarbônicas com idades entre 9.000 e 10.000 anos atrás para o abrigo VI, a datação mais antiga do Brasil e das Américas até aquele momento, colocando Cerca Grande no panorama internacional da Arqueologia e comprovando a antiguidade do chamado “Homem de Lagoa Santa”, antigas populações caçadoras-coletoras da região cárstica de Lagoa Santa, inicialmente descoberto por Peter Lund ainda no século XIX.

 

Em Cerca Grande também foram identificados fósseis de diversas espécies, que se extinguiram na América do Sul entre o fim pleistoceno e início do holoceno. Dentre as espécies identificadas destaca-se uma das variações do dentes de sabre, Smilodon populator e duas espécies de preguiças terrícolas, Scelidodon cuvieri, e Nothrotherium maquinense.
Cerca Grande, como parte da paisagem cárstica mineira, foi o fundo do antigo mar de Bambuí, guardando vestígios da história da Terra em suas cavernas e paredões. Observa-se nesta paisagem, remanescentes vegetacionais principalmente associados aos afloramentos calcáreos e seu entorno. Tais remanescentes constituem-se essencialmente de “Mata Seca”, ou seja, vegetação florestal que apresenta grande perda de folhas nos períodos secos.

 

Muitas vezes, o afloramento de calcário está associado a uma dolina (depressão típica dos sistemas cársticos), nesta, usualmente, também se desenvolve a vegetação florestal do tipo mata seca. Nestas áreas, pode ocorrer o afloramento do aquífero na dolina, ao ponto de formar lagoas ou brejos, processo este observado ao redor do maciço de Cerca Grande onde ocorrem diversas lagoas intermitentes.
A diversidade de ambientes existente no parque possibilita uma relevante diversidade de fauna, destacando-se a ocorrência do lobo guará, Chrysocyon brachyurus, espécie ameaçada de extinção. Ressalta-se ainda o maciço de Cerca Grande como local de nidificação do urubu rei, Sarcoramphus papa, espécie rara dentro da região e do papagaio verdadeiro, Amazona aestiva, espécie extremamente perseguida, e alvo do tráfico de animais.
Por tudo o que foi descrito, o Parque Estadual Cerca Grande se destaca por sua importância para a conservação da biodiversidade, bem como por guardar relevantes vestígios da história do planeta, da vida e das primeiras populações humanas a América do Sul.

 

Texto: Mariângela de Fátima Araújo - Gerente Administrativa - Parque Estadual Cerca Grande